Aquele era seu território. Ele conhecia cada remendo no asfalto, cada valeta traiçoeira sob as pontes. Pilotava há oito anos, desde os dezoito, e a cidade se tornara uma extensão de seus nervos. Mas naquela noite, a fúria não veio do trânsito.
Ele colou na traseira do Fiesta. Iluminou o retrovisor com o farol alto. A moto tremia de impaciência. Anda, seu merda. Anda. furia em duas rodas
Foi então que viu o Fiesta prata.
Ele ficou ali por dez minutos. Depois, levantou, girou a chave e deu partida. Mas agora, na volta para casa, a moto parecia diferente. Não uma fera. Apenas um veículo. Duas rodas sem fúria. Aquele era seu território
Ele acelerou.
Quando chegou, Marina estava na varanda, o rosto iluminado pelo celular. Ele subiu, abraçou-a por trás e sussurrou: “Vou dar um jeito. No aluguel. No trabalho. Tudo.” Mas naquela noite, a fúria não veio do trânsito